Você sabia que a música “Girassóis de Van Gogh” do Bacu Exu do Blues (isso, aquela que fala “você tem uma cara de quem vai f#der minha vida…”) fala sobre alguém em depressão e que antigamente a galera tomava um determinado remédio para saúde mental que elas enxergavam as coisas amareladas e por isso o nome da música?
E que a música “Resposta” que ficou famosa na voz do Shank foi escrita por Nando Reis em referência à uma resposta que ele nunca recebeu da Marisa Monte no término do relacionamento deles? (que dizem que ela respondeu com “Ainda lembro”).
Ah, e que na música “Vambora” da Adriana Calcanhoto, quando ela canta “na cinza das horas…” e “dentro da noite veloz” ela está se referindo a dois livros com esses títulos de Manuel Bandeira e Ferreira Gullar (respectivamente) que falam de solidão de maneiras diferentes?
E por que estou contando essas curiosidades das músicas?
Por que eu estava pensando de como gosto das narrativas que apontam para outra coisa que não aquilo que está ali óbvio. Talvez a mais tempo que eu achava.
Vai ver é por isso que sou psicanalista lacaniano (o que torna esse texto elegível para instagram profissional também).
Meu filme favorito é “Romeu e Julieta” de 1996. Sim, história besta, simples, repetitiva, neh? Pois é, exatamente isso, para quem nunca viu ele conta a história do casal mais famoso dos Romances (ainda que eu ache que é sobre sexo e não sobre amor, mas deixo para outro dia) mas se passando em tempos “atuais” (1996), ao invés de espadas, armas, Montequios e Capuletos são grandes famílias empresárias, etc, etc. MAS…. o ponto é, o texto é o original, aquele do Tio Shakespeare.
Ou seja, você vê Romeu apontar uma arma para Teobaldo depois de capotar um carro dizendo “Sou joguete do destino…”, entre outros.
Ou seja, é uma quebra de… uma quebra!
Você revive uma história, uma narrativa sem que seja uma repetição, sabe? Em uma pegada bem Heráclito (o que me lembra de “Panta rei” de Lacan, indico).
Eu mesmo, vou passar protetor solar e vem uma voz na minha cabeça “você passa pouco protetor solar”, SEMPRE. O que faz aquele ato não ter só a ver com proteção contra raios do sol, etc, etc.
Ou quando escuto falar do Nino do Castelo Ratimbúm e me lembro de já ter sido Nino de uma Amelie Poulain..
E por aí vai…
Acho que acima de tudo o interesse de escutar e ver além, me causa em dois lugares… primeiro que eu continuo a ouvir depois de ouvir, continuo a ler depois de ler, continuo olhando depois de ver… e outra que me permite acessar lugares inéditos NO MUNDO. As vezes no mundo de um outro.
Me lembro de estar estudando o Aristóteles esses dias onde ele fala que o vazio não existe (faz demonstrações científicas e tudo).
E também me lembro de como uma narrativa conta uma história que se fecha no destino, não na fonte e como estar aberto a ouvir novamente, olhar novamente e SENTIR novamente cria um vazio passível …passível de tudo!
E isso é lindo, isso é forte, isso é possibilidade de vida, de existências, no plural mesmo…
E…
E isso dá medo.
Não dá?
Será que o senso comum de que se tem medo da morte está errado?
E se tivermos medo de viver? De viver demais, de viver tanto, mas tanto que se pode morrer, perder, acabar??
Vai ver a gente tá controlando nosso viver pra poder sobreviver mesmo. (claro que aqui testou pensando no “principio de prazer” freudiano e no conceito de angustia de Kierkegaard).
Esses dias me perguntaram “Em uma realidade narrativa onde tudo é possível, você preferiria viver uma paixão incrível onde você tenha sensações físicas de prazer e felicidade que nunca viveu por 3 meses e depois teria a certeza de uma dor proporcional ou você preferiria um amor constante que durasse muitos anos com espaços longos e desequilibrados entre prazer, sorrisos, lágrimas e dores?”
E então, pra responder, escrevi esse texto.
Felipe Teles