Vamos direto e prático.
Vou contar duas realidades.
Primeiro Zeca:
Se formou em 6 anos na faculdade de psicologia pública, teve que adiar um pouco, trabalhava enquanto estudava, mas rolou. Mas sempre com ótimas notas.
Zeca saí graduado mas meio perdido, como começar, onde começar.
Fala com amigos e vê uns vídeos no Youtube, começa atendendo on line, ainda não tem grana para um consultório presencial.
Faz uma divulgação linda, monta um Instagram, escreve sobre temas importantes e relevantes, referências e tudo que fazia na faculdade. Não tem muitas curtidas mas ele é resiliente, aprendeu nos vídeos, continua.
Dificuldades com primeiros pacientes, Zeca marca supervisão em grupo, 100 conto por mês para “4 supervisões”? Bora.
Ele passa a fazer tudo que a supervisão diz, nem sempre funciona, alguns pacientes vão embora.
E agora? Tem pagar CRP já já, não é barato. O livro que precisa para melhorar na clínica custa 80 reais, é a soma de duas sessão de um paciente, caraca. Bora parcelar.
Zeca começa a se divulgar, posta “agenda aberta” e quer mostrar para todos como é bom no que faz, só precisa encontrar pacientes que o encontrem.
“Isso não é psi, você não pode ficar divulgando agenda aberta, indicação é por confiança.”… é o que Zeca passa a ouvir.
Ainda perdido, Zeca não sabe muito o que fazer, a grana tá curta, talvez essa tal pós em psicanálise possa me valorizar, mas preciso de grana e agora?
“Só posso pagar R$ 32,90” dizem os novos pacientes.
Zeca não tem opção, aceita todos os pacientes possíveis, qualquer grana ajuda…
Mas muitos casos, precisam de supervisão… precisa estudar mais… precisa…Ah…
“Será que isso é pra mim? Ouvir dizer que isso não é pra todo mundo….”
Agora Zé da Manga:
ZM se formou em 5 anos em uma faculdade particular bem cara, passou na média, não se precisa mais que isso, né?
Ao terminar, seus pais montaram um consultório em uma área nobre da Capital, tem recepção, café, um jardim lindo e, ao lado, o metrô.
“Só vamos pagar os dois primeiros anos, filho meu precisa aprender a se virar” ameaçam os pais.
ZM então se sentiu pronto, viu os mesmos vídeos no Youtube que Zeca, avisou sua rede de contatos dos filhos e amigos que agora estava atendendo em X e recebendo pacientes. “Agenda aberta”!
ZM começou a receber pacientes, mas eles queriam pagar 40, 80 reais.
“Por esse valor não posso atender, meu mínimo é 600 reais, se conseguir, volta”.
Já foram 4 meses, pacientes que queriam pagar estava baixo, os pais só iriam bancar aquele consultório mais um ano e meio, desespero.
“Já sei, os vídeos”…
Aprendeu se divulgar na redes.
Fez post “agenda aberta” e pagou patrocínio no instagram e voilà. Aqueles 2.000 reais por semana pra impulsionar seu post rendeu.
Em pouco tempo ZM recebia pelo menos 2 pedidos por dia pra atendimento.
Aprendeu analisar pela foto do whatsapp, “pessoas com fotos em viagem na Europa talvez possam pagar mais.”, pensava.
Problema é que os pacientes não ficavam, mas tudo bem, a rotatividade é grande mas contínua, importante é que eles paguem.
Então ZM passou a aceitar somente pacientes que pagavam alto, com a grana fazia supervisão individual 3x por semana com 3 “especialistas” diferentes.
Passou a dar cursos de como ganhar dinheiro na clínica, afinal, funcionou pra ele.
“Isso funciona muito, talvez eu deva abrir filiais de clínicas sociais, acho que 150 reais em média já que tem gente que não pode pagar ‘o valor real’ “ pensava ZM sobre o futuro…
Cuidado ao se comparar, muitos posts de rede social carecem de consciência de classe e exageram na burrice, mau-caratismo e hipocrisia.
Obs: ISSO É UMA HISTÓRIA FICTÍCIA, qualquer semelhança com alguma realidade é mera e infeliz… coincidência…
Felipe Teles